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TDAH em adultos: seis crenças comuns e o que a pesquisa diz sobre elas

26 de agosto de 20269 min de leituraEquipe Proprium

Poucos temas de saúde mental cresceram tanto na conversa pública quanto o TDAH em adultos. O efeito é ambíguo. Muita gente que passou a vida achando que era preguiçosa finalmente procurou avaliação, e isso é bom. Ao mesmo tempo, o assunto virou conteúdo, e conteúdo comprime nuance. O resultado é um conjunto de frases que soam científicas e não são.

Abaixo estão seis dessas frases, com o que a literatura efetivamente sustenta. O objetivo não é decidir o seu caso, e sim melhorar a qualidade das perguntas que você leva para uma avaliação.

1. É moda, quase ninguém tem de verdade

O estudo populacional de referência é o National Comorbidity Survey Replication, conduzido sob coordenação de Ronald Kessler, da Harvard Medical School. A prevalência estimada de TDAH em adultos nos Estados Unidos ficou em 4,4%. Não é raro, e também não é a maioria das pessoas com dificuldade de concentração. As duas leituras extremas erram.

Vale registrar outro dado do mesmo estudo: a maior parte dos adultos que preenchiam critérios não estava em tratamento. O problema de saúde pública, quando os dados foram levantados, era de subdiagnóstico, não de excesso.

4,4%prevalência estimada de TDAH em adultos no estudo populacional NCS-R
6perguntas do ASRS, o rastreio da OMS desenvolvido com Harvard
0,90área sob a curva do rastreio ASRS em relação ao diagnóstico clínico

2. Se eu consigo focar em algo que gosto, não é TDAH

Essa é provavelmente a crença que mais atrasa procura de ajuda. O quadro não é ausência de atenção, é dificuldade de regulação da atenção. Interesse alto, novidade, urgência e recompensa imediata mobilizam o sistema com facilidade. Tarefas de baixo estímulo e retorno distante, que são a maior parte da vida adulta, não mobilizam.

Períodos de concentração intensa em algo interessante não contradizem a hipótese. Eles fazem parte do padrão descrito na literatura clínica há décadas, inclusive no trabalho de Russell Barkley, que propõe entender o quadro menos como déficit de atenção e mais como um problema de autorregulação e de funções executivas.

3. Existe um teste que fecha o diagnóstico

Não existe. O rastreio mais usado no mundo é o ASRS, a escala de autorrelato desenvolvida pela Organização Mundial da Saúde com pesquisadores da Harvard Medical School. A versão curta tem seis perguntas e mostrou boa concordância com diagnóstico clínico, com área sob a curva em torno de 0,90 em amostra de plano de saúde.

Boa concordância não é diagnóstico. O ASRS é um filtro: ele indica quem merece investigação. A conclusão exige história de desenvolvimento, evidência de prejuízo em mais de um contexto, exclusão de outras explicações e, com frequência, avaliação neuropsicológica somada à avaliação médica.

Rastreio responde quem deve ser investigado. Avaliação responde o que está acontecendo. Confundir as duas coisas produz diagnóstico rápido e frágil.

Sobre o uso de escalas

4. Se der alterado em algum teste cognitivo, está confirmado

Um desempenho abaixo do esperado em um único instrumento é achado estatisticamente comum em pessoas sem qualquer transtorno. Baterias com muitos testes produzem, por probabilidade, algum resultado baixo em quase todo mundo.

Além disso, os testes de função executiva mais usados têm sensibilidade limitada para TDAH em adultos: existe gente com o quadro e desempenho normal em laboratório, porque a sala de testes é justamente um ambiente estruturado, silencioso e com supervisão, ou seja, o oposto da condição em que a dificuldade aparece. Por isso o resultado precisa ser lido junto do funcionamento real.

5. Se fosse TDAH, teria aparecido na infância com nota vermelha

Os sinais precisam existir desde cedo, mas nem sempre aparecem como fracasso escolar. Inteligência alta, ambiente familiar muito estruturado e escolas com rotina rígida compensam por anos. É comum a dificuldade aparecer de forma clara só quando a estrutura externa desaparece, o que costuma acontecer na universidade, no primeiro emprego com autonomia ou depois da chegada de um filho.

O que a avaliação procura na história não é boletim ruim. É evidência de esforço desproporcional para chegar ao mesmo resultado dos outros.

6. Ou é TDAH, ou é ansiedade

Essa é falsa dicotomia. Comorbidade é a regra e não a exceção: ansiedade, depressão, transtornos de humor e uso de substâncias aparecem com frequência alta em quem tem o quadro. Muita ansiedade adulta é, em parte, consequência de anos vivendo com prazos ameaçando e desempenho oscilando.

Também é preciso considerar o caminho inverso. Privação crônica de sono, apneia, hipotireoidismo, depressão e ansiedade produzem, isoladamente, queixa idêntica de desatenção. Uma avaliação que não investiga sono e humor antes de concluir está pulando etapa.

O que uma boa investigação faz

  • Reconstrói a história de desenvolvimento, com fontes além do autorrelato quando possível.
  • Verifica prejuízo em mais de um contexto de vida, e não apenas incômodo subjetivo.
  • Mede desempenho cognitivo com normas de idade e escolaridade, sem tratar escore isolado como veredito.
  • Investiga sono, humor, uso de substâncias, medicação em curso e condições clínicas.
  • Testa hipóteses concorrentes antes de fechar, e escreve no laudo o que ficou em aberto.
  • Devolve o resultado em linguagem comum, com orientações aplicáveis à rotina real.

Diagnóstico é conclusão clínica, construída a partir de tudo isso. Ele não sai de um formulário, e também não sai de um vídeo de trinta segundos que descreve com precisão algo que você faz.

Este texto tem finalidade informativa e não substitui avaliação individual. Nenhum conteúdo aqui serve para autodiagnóstico ou para indicar tratamento à distância. Cada caso é avaliado presencialmente ou em atendimento online, por profissional habilitado.

Referências consultadas

  1. Kessler, R. C. e cols. (2006). The prevalence and correlates of adult ADHD in the United States: results from the National Comorbidity Survey Replication. American Journal of Psychiatry, 163(4), 716-723. Texto completo em PubMed Central.
  2. Kessler, R. C. e cols. (2005). The World Health Organization Adult ADHD Self-Report Scale (ASRS): a short screening scale for use in the general population. Psychological Medicine, 35(2), 245-256. Resumo em PubMed.
  3. Kessler, R. C., Adler, L. A., Gruber, M. J., Sarawate, C. A., Spencer, T., & Van Brunt, D. L. (2007). Validity of the World Health Organization Adult ADHD Self-Report Scale (ASRS) Screener in a representative sample of health plan members. International Journal of Methods in Psychiatric Research, 16(2), 52-65. Texto completo em PubMed Central.
  4. Barkley, R. A. (org.) (2015). Attention-Deficit Hyperactivity Disorder: a handbook for diagnosis and treatment. 4ª ed. Guilford Press. Livro. Página da editora.
  5. Conselho Federal de Psicologia (2022). Resolução CFP nº 31/2022, de 15 de dezembro de 2022, que estabelece diretrizes para a realização de avaliação psicológica no exercício profissional e revoga a Resolução CFP nº 09/2018. Página oficial do CFP.

A dúvida sobre TDAH merece investigação, não um rótulo rápido.

A Sessão de Orientação define se o caminho é avaliação neuropsicológica, avaliação psicológica ou acompanhamento.

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